Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Dicere Aude

Ousa dizê-lo, ousa partilhá-lo! Não porque pretendo incendiar o mundo, mas porque pretendo deixar o meu coração incendiar-se.. e lentamente deixar fluir um pouco por palavras aquilo que me vai dentro, no pensamento e no coração! Escrever é isso!

Dicere Aude

Ousa dizê-lo, ousa partilhá-lo! Não porque pretendo incendiar o mundo, mas porque pretendo deixar o meu coração incendiar-se.. e lentamente deixar fluir um pouco por palavras aquilo que me vai dentro, no pensamento e no coração! Escrever é isso!

Intraduzível?

“O génio da língua portuguesa é a essência espiritual dos seus vocábulos intraduzíveis, que se pode sintetizar numa expressão mais ou menos definida” Teixeira de Pascoaes

 

Toda a língua tem algo de original, toda a língua tem algo de único e característico, sim é verdade, mas o que aqui entendemos por intraduzível?

Na verdade, as pessoas são diferentes nas suas próprias maneiras de ser e expressar, bem como os seus próprios povos o são. Isso faz com que naturalmente apreendam e expressem o mundo de formas diferentes, levando a que inventem e reinventem palavras próprias para situações próprias, que talvez outros povos e outras pessoas não tenham vivido. As palavras em si não são intraduzíveis, o que é intraduzível é o significado profundo que se dá a cada palavra, bem como a sua importância histórica, não é a palavra em si que é intraduzível, mas a sua história, porque… nem tudo de pode pôr por palavras.

 

O texto dá-nos o exemplo de algumas palavras características da língua portuguesa, segundo ele “intraduzíveis”, é o caso da palavra saudade. A palavra em si, não é intraduzível, porque em boa verdade, consegue-se muito bem pôr por outras palavras noutras línguas, ex: “I miss someone or something”, em inglês, “tu me manques”, em francês. Também no crioulo de Cabo-Verde existe uma palavra perfeitamente traduzível da palavra saudade: “sodade”, mas que ao mesmo tempo é intraduzível. É traduzível porque o termo corresponde à saudade, até porque a palavra foi daí herdada, mas os cabo-verdianos apropriaram-se dela, e mais, transformaram-na, e atrevo-me a dizer que passou a significar muito mais do que saudade. Ela engloba todos os nomes que podemos associar à palavra saudade tais como desejo, lembrança, gosto, amargura, etc., mas ao mesmo tempo engloba mais do que isso. Engloba um povo que tem na sua cultura e tradição a emigração, a partida para terras longínquas, e, na mesma proporção que os portugueses “inventaram” a saudade na época dos descobrimentos, assim também os cabo-verdianos “reinventaram-na” com as constantes partidas dos seus entes queridos para terras distantes, ficando aquela sensação de perda e desolação particularmente duras, misturada com ânsia e desejo, e embelezada com amor. Digo que significa mais porque o contexto do uso da palavra “sodade” continua presente, a emigração é ainda cultura cabo-verdiana e os emigrantes são os que mais e melhor conhecem essa palavra, ao passo que o contexto da palavra “saudade” já não existe, ela ficou lá trás, porém ficou na língua a herança desse passado, ficou o termo que ainda hoje se utiliza num sentido muito forte, mas não tão forte como o era quando surgiu. Assim podemos ver que o termo, apesar de ser traduzível por expressões existentes noutra língua, ela é intraduzível, no ponto de vista da sua história que é própria e única, vinculada e vivida pelo seu próprio povo.

Jocilene Santos Lima, Reflexão sobre o texto “o génio da língua portuguesa” de Teixeira de Pascoaes